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“A história do Cruzeiro é muito maior do que títulos”: Fábio Militão detalha pesquisas históricas e projetos do Núcleo de Pesquisas do Cruzeiro – IPITA

By 13 de maio, 2026No Comments

Pesquisador fala sobre descobertas documentais, memória esportiva, imigração italiana, resgate cultural e futuros projetos desenvolvidos em parceria com o Instituto Palestra Itália.

Dalila Nicollai, filha de um dos fundadores do Sociedade Esportiva Palestra Itália, Nello Nicolai , batizando um barco em uma das corridas promovidas pelo Cruzeiro nos anos 1940. A data exata do evento é desconhecida. A competição de navegação aconteceu na Lagoa da Pampulha.
A foto foi cedida pelo pesquisador Fábio Militão.

A história do Cruzeiro Esporte Clube vai muito além das conquistas dentro de campo. É dessa forma que o pesquisador Fábio Militão resume o trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisas do Cruzeiro – IPITA, iniciativa vinculada ao Instituto Palestra Itália (IPITA) e criada com o objetivo de preservar, organizar e valorizar a memória histórica do clube celeste.

Em entrevista institucional concedida ao Instituto Palestra Itália, Militão falou sobre as origens do projeto, os bastidores das pesquisas históricas, as descobertas documentais realizadas pelo grupo e os futuros projetos culturais relacionados à trajetória centenária do Cruzeiro. A conversa também abordou temas como imigração italiana, memória esportiva, patrimônio cultural, inclusão social e a importância da preservação documental no futebol brasileiro.

Segundo o pesquisador, o trabalho teve início em 2019, quando ele passou a aprofundar pesquisas relacionadas à Era Palestra Itália ao lado do pesquisador Romero Marconi. O que começou como debates sobre documentos históricos e versões difundidas ao longo do tempo rapidamente se transformou em um amplo projeto de investigação histórica.

“Quando começamos a pesquisar, percebemos que existiam muitas informações pouco conhecidas e até versões equivocadas sobre a história do Cruzeiro. A partir dali entendemos que havia necessidade de um trabalho mais profundo e organizado”, explicou Militão durante a entrevista.

Ao longo dos últimos anos, o grupo reuniu um vasto acervo composto por jornais antigos, revistas, fotografias, documentos históricos, periódicos e registros relacionados às primeiras décadas do clube. Atualmente, o material digitalizado soma aproximadamente 500 gigabytes de conteúdo histórico.

Página da revista Sport Illustrado, de 27 de julho de 1938, retratando a grande repercussão da partida entre Flamengo e Palestra Itália em Belo Horizonte. Com o título “Bello Horizonte delirou!”, a composição reúne imagens da chegada dos jogadores rubro-negros, da recepção aos atletas — com destaque para Leônidas da Silva —, de uma transmissão radiofônica e das arquibancadas lotadas do estádio. A página evidencia o entusiasmo do público mineiro e a importância do futebol como espetáculo popular no Brasil dos anos 1930.

Parte significativa das pesquisas foi realizada em bibliotecas públicas, coleções particulares e centros de documentação histórica, incluindo consultas à Biblioteca Nacional e à Biblioteca Pública de Minas Gerais. Segundo Militão, o processo de pesquisa exige cruzamento constante de informações para garantir fidelidade histórica aos fatos levantados.

Durante a entrevista, o pesquisador revelou que uma das principais preocupações do grupo é justamente evitar o apagamento da memória esportiva do clube. Para ele, muitos documentos históricos ainda permanecem vulneráveis ao desgaste do tempo e à falta de preservação adequada.

“O futebol brasileiro preserva pouco a própria história. Muitas vezes os clubes lembram apenas dos títulos, mas esquecem as pessoas, os contextos históricos e os personagens que ajudaram a construir essa trajetória”, afirmou.

Entre as descobertas destacadas durante a conversa, Militão citou análises envolvendo os primeiros estatutos do clube e documentos históricos que ajudam a contextualizar melhor o período da fundação do Cruzeiro. Segundo ele, as pesquisas permitiram compreender aspectos pouco debatidos sobre o antigo Palestra Itália e sua relação com a sociedade mineira da época.

Um dos pontos mais marcantes mencionados pelo pesquisador envolve uma fotografia rara encontrada pelo grupo, datada provavelmente entre 1924 e 1925. O registro mostra um atleta negro integrando o elenco do Cruzeiro ainda nos primeiros anos do clube. Para Militão, a descoberta ajuda a desconstruir interpretações históricas equivocadas reproduzidas ao longo das décadas.

“Encontramos documentos e registros que mostram um clube muito mais plural do que algumas versões difundidas durante muitos anos”, destacou.

A questão racial e social dentro do futebol também apareceu durante a entrevista quando Militão relembrou o projeto “Museu do Negro no Futebol”, desenvolvido na escola onde trabalha e posteriormente apresentado no Mineirão com apoio do Globo Esporte. Segundo ele, iniciativas como essa demonstram que a memória esportiva também possui papel educativo e social.

Outro momento importante da conversa ocorreu quando o pesquisador apresentou uma réplica histórica da primeira camisa utilizada pelo clube ainda como Palestra Mineiro. A reprodução foi desenvolvida a partir de fotografias históricas encontradas durante as pesquisas do Núcleo de Pesquisas do Cruzeiro – IPITA.

A final do Campeonato Mineiro de 1967 foi realizada em 1968. No primeiro confronto, o Cruzeiro Esporte Clube venceu por 3 a 1. Na partida decisiva, o Cruzeiro conquistou nova vitória, desta vez por 3 a 0, consagrando-se campeão mineiro de 1967.

Militão explicou que muitos torcedores sequer conheciam detalhes do uniforme utilizado pelo clube em seus primeiros anos ou o período em que a equipe utilizava oficialmente o nome Palestra Mineiro antes da adoção definitiva do nome Cruzeiro.

“A camisa representa mais do que um uniforme. Ela conta parte da identidade e da origem do clube”, comentou durante a entrevista.

Além da preservação documental, o Núcleo de Pesquisas do Cruzeiro – IPITA pretende ampliar projetos culturais ligados à história do Cruzeiro. Entre as iniciativas debatidas estão exposições históricas, produção de documentários, elaboração de livros, organização de bancos de dados estatísticos, desenvolvimento de conteúdos digitais e criação de um memorial esportivo permanente.

O pesquisador também destacou o desejo de desenvolver homenagens a personagens históricos pouco lembrados pelo grande público, como Adelino Pracinha, atleta do Cruzeiro e combatente da Segunda Guerra Mundial. Segundo Militão, o grupo considera fundamental resgatar histórias de figuras que ajudaram a construir a identidade do clube.

Outro tema amplamente debatido durante a entrevista foi a relação entre o Cruzeiro, o bairro Barro Preto e a imigração italiana em Belo Horizonte. Militão explicou que o bairro possui importância simbólica para a formação histórica do clube e deveria ser valorizado como espaço de memória esportiva e cultural.

Segundo ele, diversos fatores históricos contribuíram para o apagamento gradual da identidade italiana da região, especialmente após o período da Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, muitos elementos da formação cultural do clube permanecem ligados diretamente à história do Barro Preto.

Durante a entrevista, Militão também comentou sobre a produção do podcast “Memórias de um Gigante”, criado durante o centenário do Cruzeiro com o objetivo de narrar a trajetória histórica do clube desde sua fundação até as décadas seguintes. O projeto ajudou a aproximar torcedores de temas históricos pouco explorados no ambiente esportivo.

Entre os futuros projetos do Núcleo, o pesquisador revelou que o grupo já trabalha em pesquisas relacionadas ao centenário do primeiro título histórico do Cruzeiro, conquistado em 1926. A intenção é produzir um dossiê histórico voltado ao reconhecimento institucional da conquista.

Também estão em andamento pesquisas sobre escudos históricos do clube, personagens importantes da trajetória celeste e períodos pouco conhecidos das décadas anteriores aos anos 1960.

Para Militão, a criação do Núcleo de Pesquisas do Cruzeiro – IPITA representa um passo importante para garantir que a história do Cruzeiro seja preservada de maneira organizada, acessível e responsável.

“O objetivo nunca foi disputar versões ou protagonismo. O que queremos é preservar a história do Cruzeiro da forma mais fiel possível para que futuras gerações possam conhecer essa trajetória”, afirmou.

Ao comentar sobre a parceria com o Instituto Palestra Itália, o pesquisador destacou a importância do acolhimento institucional oferecido pelo IPITA. Segundo ele, a credibilidade do Instituto foi determinante para consolidar o projeto e ampliar as perspectivas futuras do grupo.

A entrevista também contou com a participação do diretor administrativo/executivo do IPITA, Daniel Jardim Pardini, que ressaltou a importância da preservação da memória esportiva como instrumento de fortalecimento cultural e institucional.

Ao final da reunião, os participantes reforçaram o interesse na realização de novas entrevistas, debates, exposições, conteúdos audiovisuais e projetos culturais voltados à valorização da história do Cruzeiro, da imigração italiana e do patrimônio esportivo de Minas Gerais.